domingo, 1 de novembro de 2009

CALDO DE PIRANHA

Quando me preparava para retornar de uma das pescarias no rio Paraná, ganhei um incalculável número de piranhas, todas bem acondicionadas em bastante gelo.
Disse-me o Tião que agüentaria a viagem sem qualquer problema. Explicou-me que aquilo era ingrediente de um excelente prato que chamou “Caldo de Piranha”. Detalhou-me com cuidados os benefícios, e, por fim, disse ser"afrodisíaco". Era sempre esse caldo que salvava os pirangueiros na satisfação completa das suas amadas, afirmou-me.
Observei aquele pacote gelado e fiquei a me perguntar como seria possível arrancar dali tanto "fogo". Pedi-lhe a receita que anotei com cuidado, indiferente às gozações que faziam meus com-panheiros.
Na festa que sempre fazíamos, algum tempo depois de todas as pescarias, que tinha a finalidade de colocar as conversas em dia, relembrar os peixes que haviam escapado e para se iniciar as programações da próxima, divulguei que ofereceria o famoso caldo. Apelidaram-no “o caldo bomba atômica”.
Deixei aquele pacote o dia todo fora do gelo para que descongelasse e de tardinha os peixes tinham descongelado. Tirei as escamas com cuidado, lavei as peças, pedi uma panela de ferro de uns dez litros, enchia de água, coloquei aqueles peixes dentro e deixei fervendo por duas horas, conforme previa a receita do Tião. Ao final, estavam derretidas e um amontoado de espinhos ocupava espaço na panela. Pedi um “mix” e triturei aquilo tudo, sem tirar nada, nem os olhos das piranhas. Ficou um misturado grosso e viscoso, até meio esquisito, que alguns curiosos observavam e faziam comentários:
- Tomar caldo de um bicho que come gente!
- Cabeça de peixe tem que ser jogada fora!
- Comer os olhos, nem pensar!
- Não escaparam nem os dentes!
Continuei o trabalho executando uma peneirada. Era para tirar os mais grossos e fui adicionando água até ficar no ponto. Na seqüência foi só temperos: sal, salsa, cebolinha verde, alho, cebola, alecrim, pimenta do reino, alfavaca e malagueta. Um pouco de ajinomoto para dar o equilíbrio.
Uma última fervura, umas provadas, algumas gramas de sal que faltavam e estava pronto.
O Tião me dissera que poderia ser servido em xícaras como uma espécie de entrada. Devia ser bem quente, e seria melhor consumido caso a temperatura ambiente estivesse baixa.
Fui o primeiro a saborear, como a querer provar aos presentes que não era veneno. A princípio aquele caldo parecia incutir curiosidade nos presentes, principalmente entre as mulheres. Mas foi sendo consumido, consumido e consumido. Em pouco tempo a panela estava vazia.
Queriam a receita, pediam o nome dos temperos utilizados, pois, confessavam que nunca haviam tomado um caldo tão gostoso.
Estão a me perguntar se os efeitos propagados pelo Tião tinham fundamento. Uns disseram que não sentiram nada de anormal; outros andam a dizer que a coisa funcionou. Querem agora uma pescaria no pantanal, porque o rio Paraná quase não tem mais piranha.

Um comentário:

  1. meu amigo eu que adoro peixes, Amo de paixão um caldo de piranha, meu irmão faz um que é um manjar dos deuses. pelo jeito o seu também deve ter ficado maravilhoso. Agora os efeitos colaterais apesar do velho mito, não sei se é eficaz. Beijos e um ótimo final de semana.

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