segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O CASAL CAMINHANTE

Não sei seus nomes. Não sei suas idades. Sei que, impreterivelmente, todas as manhãs, passam rumo ao sul e, meia hora depois, retornam ao encontro do norte.
Sempre o mesmo trajeto. A mesma calçada. A mesma postura alquebrada dos dois. Ele se apoiando a ela, pois se parece mais idoso.
Seguem sempre em silêncio. Indiferentes com os que passam, com os carros da avenida, com os moradores dos prédios que se estendem ao longo do caminho.
Quantos anos terão? Deduzo uns oitenta ele, uns cinco a menos ela. Estão em forma: nem obesos, nem magros.
Pois da janela do local onde trabalho observo-os há dias seguidos. Ela parece mais conservada, ele mais cansado.
Cadenciam os mesmos passos numa sincronia perfeita: braços entre braços.
Não devem morar longe daqui. Quando estão indo suas fisionomias transmitem o desejo de percorrer caminhos, quando retornam estão ofegantes, suor pelas faces. Transportam uma espécie de tristeza sem expectativas. Parecem querer chegar.
Mas no fundo, no fundo, transmitem a sensação de um casal realizado, sem se livrarem da tristeza, da ofegância, da ausência de alternativas, das faces enrugadas e de um passado bem vivido.
São coisas do tempo. Quanto já não terão conversado! Certamente, amado muito! Não é para qualquer um chegar aos oitenta, numa paz de espírito assim!
Não sei seus nomes, nem buscarei saber. São os meus simpáticos velhinhos que todas as manhãs passam cumprindo essa rotina diária.
De uma coisa tenho certeza: quero que continuem passando ali, durante ainda muitos anos, mas sei que as previsões não são longas.
O cabelo feito rabo de cavalo já todo branco dele, se identifica com o dela, que por não receber tintas, também não suportou o trabalho dos anos.
Tenho a impressão que aboliram as conversas. Comunicam-se mentalmente e por olhares, alguns afagos de mãos.
Ei-los passando!
Estão retornando para o norte.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

INSOSSO

Vieram-me vender livros infantis:
Era uma vendedora gentil,
bela, jovem e falante.
Divulgava seu produto,
propondo muitos descontos,
e alegrias incontidas,
às felizardas crianças.

Olhei...
Apreciei as estorinhas,
e os bem montados “cedes”
de tentadoras aparências,
bem feitas caricaturas,
sugestões de bons presentes.

Subitamente parei,
refletindo aquele instante:
Que situação a minha...!

Agradeci pelas ofertas,
mas espantou-se a vendedora,
pois lhe disse muito triste,
que não os tinha a quem doar.

Fase intermediária, esta minha:
sem sal e sem açúcar,
não há sobrinhos,
faltam netos,
inexistem as crianças,
que possam ler as estorinhas...!

video

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

VAI TRANCAR TUDO



Fiquei sabendo que em Curitiba são emplacados cem carros novos por dia. Isso quer dizer que são três mil por mês o que significa trinta e seis mil no ano.
Se considerarmos que, em média, cada carro ocupa um espaço de três metros lineares de ruas e estacionamentos, a cada ano são ocupados cento e oito mil metros.
Não se vê possibilidades de aumentar as vias públicas na mesma proporção de crescimento dos carros. Aliás, em vez de aumentarem, estão diminuindo, como fizeram e continuam fazendo com a Avenida Marechal Floriano, só para citar um exemplo. Deixaram a mesma largura em alguns espaços e criaram estrangulamentos na própria via pública, onde só é possível trafegar um carro.
Agora ouço reclamações sobre a Linha Verde. Estão dizendo que aumentaram o número de pistas, mas, em compensação, diminuíram a área das calçadas. As casas comerciais e as prestadoras de serviços, ao longo desta linha, estão fechando suas portas porque ninguém mais consegue estacionar em suas frentes.
Pergunto: quais as providências que estão sendo tomadas? Não se vê nenhuma. Os congestionamentos aumentam dia a dia e não demora muito vai trancar tudo.

sábado, 17 de outubro de 2009

PESCA DE ARRASTÃO




Um dia encontrei Fermino numa atividade diferente. Pouco ligou com nossa chegada. Limitou-se a nos cumprimentar e disse que ficássemos à vontade, porque não podia nos dar atenção naquele momento.
Ele e mais duas pessoas, que me eram desconhecidas, limpavam peixes. Nunca imaginei que tudo aquilo havia sido pescado naquelas águas. Tinha um número incalculável de corimbas, piaparas, piaus, até dourados e alguns pintados. Estavam amontoados em baixo de uma grande figueira. Era tanto peixe que chegava a um metro de altura e uns três de circunferência.
- Precisamos apressar o trabalho, o caminhão frigorífico está lá no Porto e parte amanhã cedo para São Paulo – informou Fermino.
Era impressionante a rapidez e o conhecimento que demonstravam na limpeza da tripada daqueles peixes! As vísceras eram jogadas direto no rio, onde piranhas faziam a festa, devorando tudo e se agredindo quando os restos eram disputados.
Naquele dia Fermino não quis conversa, nem pediu cachaça. A tarefa de preparar o produto gerava um silêncio completo entre os três. Pareciam até angustiados. Por certo precisavam cumprir com a tarefa e calados ficaria mais fácil de apressar o trabalho e pôr a cabeça para funcionar calculando o dinheiro que receberiam.
Era necessário aproveitar a época de rio baixo e as muitas praias onde passavam os arrastões de malha doze, que era para pegar só os mais graúdos. Depois – na época de rio alto – teriam que abandonar aquelas ilhas ou se empoleirar nos troncos das árvores e comer algum tatu que não conseguiu fugir das águas, ou uma que outra capivara perdida.
- O peixe já está vendido? – arrisquei-me a perguntar.
- Ta sim sinhô, é só chegá lá no porto com o bicho limpo e pesá. Os home paga e põe no gelo!
- Mas como foi que pegaram tanto peixe?
- De arrastão, uai!
- Que é arrastão? - Indaguei curioso.
- Óia ali!
Havia uma rede enorme amontoada na barranca próxima do rio. Voltei sem saber como era usada, porque depois de ter parado por uns minutos e enrolado um palheiro, informou-me que o serviço estava atrasado. Entregou-se ao trabalho de cortar peixes e não falou mais.
Entendi que não conseguiria nada de Fermino naquele dia. Nos despedimos dizendo que voltaríamos numa outra oportunidade.
Ao chegarmos ao porto, lá estava o caminhão com placa de São Paulo. Porque tinha o motor ligado, pensei que se preparava para ir embora. “Aquilo era assim mesmo” - disse-me o motorista. O baú era uma câmara frigorífica que necessitava do funcionamento quase permanente do caminhão para fazer e manter o gelo. Falei-lhe do Fermino que ainda tinha muitas horas até terminar a sua tarefa de limpar peixes. Informou-me que sabiam do produto dele e que esperariam a carga.
O dono do barzinho localizado na costa daquele rio enorme e que acabara de trazer uma cerveja gelada, perguntado para explicar o que era uma pesca de arrastão, pacienciosamente assim se expressou:
- Primeiro, a pesca de arrastão está proibida no rio Paraná. Dá cana se alguém for pego praticando isso. Mas é um tipo de pescaria que pega muito peixe. Por isso, o pessoal pesca escondido. É necessário um equipamento só, que é a rede. Ela deve ter, no mínimo, cento e cinqüenta metros de comprimento, bom é duzentos e dois de altura. Malha recomendada é a doze, porque deixa passar os peixes pequenos e aprisiona bem os graúdos. A pessoa que vai comandar a rede tem que conhecer do assunto. E não só conhecer do assunto, mas também escolher um lugar bom para lançá-la. Esse lugar é sempre uma praia. Dessas que surgem no meio do rio quando ele está baixo. Tem que ser de noite, quando a lua está escura. O segredo é chegar logo de noitinha e ficar quieto, sentado na areia, de rede pronta, só esperando as batidas dos peixes. É bom nem fumar, nem conversar. Quando começam as batidas é sinal que o bicho está encostando. Eles vêm vindo de vagarinho, vem comer no raso. Às vezes são tantos que vocês não acreditam, é só vendo. Fazem um barulhão danado e então está na hora de começar a esticar a rede. Duas pessoas conhecedoras do assunto é o suficiente. Uma pega a ponta da rede e vai puxando, puxando, rio adentro até quando recebe um sinal, geralmente um assobio daquele que ficou na praia. Isso significa que a rede foi toda esticada para dentro do rio, que naqueles lugares mal chega a um metro e meio de água. Começa então o trabalho de puxar a rede rio abaixo, até atingir de novo a areia da praia. Forma-se um bolsão enorme e os peixes que ficam ali dificilmente conseguem escapar. Começa o trabalho da “puxação”. Você já sabe se tem bastante peixe, porque começa uma “bateção” infernal. É que o espaço fica cada vez mais pequeno. Os dourados, porque são muito violentos, se não ficarem malhados, pulam por cima e vão embora, mas os outros vêm todos. Tem lanços desses que pega tanto que nem dá para puxar a rede de tanto peso. Tem vezes que chegam a duzentos, trezentos quilos numa só “arrastãozada”.
- Mas isso é uma covardia – exclamei preocupado!
- Não, o rio tem peixe pra encrenca, e, depois, os pequenos sempre escapam!
- E por que então é uma pescaria proibida? - perguntei.
- Tem pescador que não respeita a malha, usa uma bem pequena, que é pra não escapar nada.
- Então foi dessa forma que o Fermino pegou aqueles peixes todos? – indaguei já entendedor da façanha.
- Não tem outra forma, só no arrastão!
- Os peixes vão acabar, não tem jeito de não ser assim! Existe fiscalização para esse tipo de pescaria?
- Existir existe, mas os homens nunca passam por aqui. Quando estão para vir, todo mundo fica sabendo uns dois três dias antes. Todos os que têm, escondem os apetrechos e eles não encontram nada.
- Mais uma cerveja, falei.
O rio recebia os últimos raios do sol avermelhando as águas que desciam. Agradeci a aula de “pirangagem” que havia recebido, mas era hora de partir. Os pernilongos já começavam a se alvoroçar.
O batelão de Fermino, na ponta da ilha, aparecia roncando e fazendo fumaça.
Chegou Fermino! Foram-se os peixes! O rio ficou mais pobre!

Capítulo do meu livro Quando faltam peixes, sobram histórias - página 109

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

POÇO DE (COM) SARILHO



Quem não se recorda do poço de (com) sarilho?
Os jovens há mais tempo, têm lembranças claras dele!
Havia um em quase todas as casas. Estava ali abraçado pela sua corda a espera sempre de ser desenrolada e enrolada . Quando voltava lá do fundo, o balde vinha cheio de uma água cristalina e até fria. Era a água fresca que ninguém dispensava nos dias de calor. Não se tinha o costume de água gelada. Geladeira quase não havia.
Quando o poço era profundo, a água custava para chegar. Se aproximava à medida que a corda ia sendo enrolada no sarilho. Às vezes aconteciam acidentes. Sem o controle daquele que ia manuseando, a corda se desenrolava furiosamente levando o balde para o fundo, provocando um estrondo lá em baixo.
A água ali era tão parada e tão pura que parecia um espelho. Quando os raios do sol do meio dia penetravam pelas paredes iluminando aquele líquido, parecia um vidro de cristal polido.
Mas a imagem mais fantástica estava reservada às noites de lua cheia. O poço absorvia a luminosidade daquele astro que se deixava fotografar no líquido transparente. Quieto a tê-lo por inteiro.
Não tinha ingredientes para tratá-la. Todos bebiam dela, saciando as suas sedes. Nunca provocava doenças. Nunca faltava.
Os vizinhos sem seu poço de sarilho serviam-se da água daqueles que tinham sem qualquer cobrança.
Nas manhãs de inverno, a água recém-chegada soltava um vapor que aquecia. Bem diferente daquela dos dias quentes que “friazinha”, refrescava.
Poço de (com) sarilho, que desenrolava para buscar esperanças e enrolava trazendo soluções!

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

DOIS LADOS

Aqui da praia onde fico,

vejo distantes e confusas,

neste oceano perdidas

de ondas e águas salgadas,

as luzes da tua Capri.


Ali, dizes, a vida é bela,

entre prazeres e luxos

nas noites enluaradas!


Aqui a paz é completa,

as vagas vêm de mansinho,

tem luzes bem definidas

que me orientam o caminho.


Aqui, do lado de cá,

distante da tua Cappri,

curto momentos divinos,

na minha Itapoá.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

PARTIDA


A partida é uma morte que pode ter ressurreição,

Um ausentar-se alegre, mas tembém triste,

rompimento que estremece,

e balança o coração,

Semeando expectativas!



Um mundo de coisas que vem à mente

suposições esperançosas e sofridas,

um dano irremediável que sofremos,

pelos momentos que perdemos.



Esperanças que renascem,

horizontes que se abrem,

sonhos que divinizam,

distâncias que aumentam.



E entre quem ficou e quem partiu

aquele espaço interminável de suspeitas

querendo ficar,

querendo fugir,

querendo morrer,

querendo voltar,

querendo ressurgir.

domingo, 4 de outubro de 2009

PESCARIA NO GUIRAÍ

Aquela pescaria levou uns três meses para ser programada. Andaram nos dizendo que peixe naquele rio pegava até de mão. Dava de tudo, principalmente dourado porque o rio era de corredeiras.
Fomos em três barcos de alumínio, ambos de seis metros, equipados com motores 25. Singrando o Ivinhema acima, gastaram três horas para chegar. Nunca tínhamos ido tão longe! A tralha de pesca, bebida e comida seguiram num batelão que levou quase um dia para atingir o destino. Fi-caríamos uma semana acampados, e, se tivesse mesmo peixe, até mais que isso.
O rio Guriaí é um afluente do lado direito do Ivinhema medindo não mais que quinze metros de largura, com águas rasas, limpas e violentas. Localizado numa região distante e quase inabitada do Mato Grosso do Sul, era-nos desconhecido. Pela distância, e porque falavam muito da quantidade de peixes ali existente, os preparativos foram diferenciados. Motores de popa revisados, tralhas de pescarias atualizadas, barracas consertadas e até um uniforme para todos os participantes, constituído de uma camiseta verde que trazia os nomes dos participantes nas costas e a seguinte frase, na cor branca: “my soi tranqüilo, Güraí”.
A comitiva também foi grande: o Diego, o Dirceu, o Mandinho, o Terêncio; o Nego, piloteiro do batelão e cozinheiro da comitiva; o Urtigão e eu.
Armamos as barracas junto de uma casa abandonada na barranca do Ivinhema. Estávamos, aproximadamente, a setenta quilômetros de sua foz, no rio Paraná e aqui ele se apresentava bem mais estreito. O Guiraí ficava duzentos metros abaixo, do outro lado do rio. Queríamos ficar na sua desembocadura, mas as margens eram tomadas por um pantanal enorme, com capins de folhas largas, que cortavam como navalha. Essa situação impossibilitava qualquer tentativa de acampamento. A primeira impressão que se teve foi de que toda aquela propaganda feita, não correspondia com a realidade que se via.
Quem primeiro se negou a pescar no Guraí foi o Terêncio. Acostumado ao mundão de água do rio Paraná, disse que um riozinho esquisito daqueles não tinha peixe e partiu Ivinhema acima, a procura de um lugar para armar seu famoso espinhel. Junto seguiu o seu sempre companheiro de barco Dirceu.
Terêncio era exagerado na armação do espinhel. Levava sempre consigo um rolo de arame liso, desses que se usa para fazer cercas nas fazendas de gado, e o esticava de um lado ao outro do rio. Depois ia armando as cordas distantes uns dois metros uma da outra. Se perguntado por que não usava uma corda comum para a linha mestra, dizia que se fisgasse um peixe grande ele poderia arrebentá-la.
Logo acima do acampamento, encontrou um lugar fundo que achou ser ideal para os seus propósitos. Armou a tralha toda, iscou-a com a ajuda do Dirceu e apelidou aquele lugar de “Poço do Jaú”. Na volta imaginou peixes enormes já fisgados e os companheiros de pescaria foram induzidos, pela sua convicção, de que a pesca estava garantida.
Já era meia-noite quando retornou da primeira vistoria ao espinhel do poço do jaú. Não nos deu notícias de peixes fisgados, mas fomos informados que, não muito distante, rio acima, estava acontecendo um baile num lugar que nos disse devia ser um vilarejo. Quis ir até lá, mas foi convencido, pelos demais participantes, que aquilo seria uma loucura sua. Sabíamos da paixão que nutria pelos bailes, mas não estávamos ali para danças. Não dormiu e não deixou ninguém dormir naquela noite, porém atendeu ao nosso pedido.
Logo cedo os preparativos da expedição ao Guraí foram iniciados. As expectativas eram grandes! Arrumaram-se as bóias, montaram-se os molinetes, separaram-se as iscas, abasteceram-se os tanques de gasolinas dos motores.
Terêncio não quis ir junto. Disse que lá não tinha peixes e que não perderia seu tempo empurrando o barco num rio que enroscaria a hélice do motor o tempo todo. Aproveitaria a manhã daquele dia para investigar o local onde acontecera o baile.
Também faria um reconhecimento da vizinhança toda, procuraria lugares para amarrar os anzóis de galho.
Tinha consigo que aquele lugar não era bom. Achava o rio sem matas nas margens, o que criava um ambiente desfavorável à fartura de peixes tão divulgada na cidade.
Com as providências tomadas, partiram dois barcos para o Guraí, Terêncio subiu o Ivinhema. Ficou no barraco o Nego para cuidar das coisas e preparar o almoço. Disse que iria pescar lambaris e piauzinhos na barranca para fazer um tira-gosto no almoço.
Não demorou muito para se dar razão a Terêncio. Aquele rio não podia mesmo ter peixes e realmente era impossível navegar nele com motor de popa. Corria-se o risco de quebrar ou danificar as hélices pela quantidade de troncos de árvores e pedras que apareciam na flor da água. Subir no remo era impossível, pois as corredeiras eram muito fortes.
Para encurtar a história: daquele rio, naquela manhã, não saiu um peixe, nem passou barco algum que pudesse nos dizer onde estavam os dourados de que tanto falaram.
Conto este caso há mais de quinze anos depois de acontecido, mas minha memória ainda tem bem nítida que nos dias todos que passamos ali, não saiu um peixe bom: nem no Guiraí, nem no poço do jaú. O Terêncio também pouco descobriu em suas incursões e nem quis falar do que viu. Passávamos o tempo tomando banho numa margem rasa do Ivinhema que tinha, no seu fundo, seixos redondos que massageavam, mas também machucavam nossos pés.
Organizamos disputas de tiro ao alvo e realizamos travessias a nado de uma margem a outra do rio.
Quando a carne e a cerveja estavam por acabar, achamos que era hora de voltar.
Essa expedição frustrada poderia ter caído no esquecimento, mas, um dia desses, revendo meu guarda-roupa, no fundo de uma gaveta, encontrei aquela camiseta verde que serviu de uniforme nesse acontecimento. Foi ela que, sem falar nada e já com sinais de deterioração, fez-me lembrar dessa pescaria.
E nós tínhamos caído no conto do pescador!